Os animais não humanos encontram-se presentes em todas as esferas da vida humana, seus tempos e espaços. Apesar disso, têm sido frequentemente ignorados e tornados invisíveis. Esta invisibilidade tem sido progressivamente questionada, na medida em que, ao longo das últimas quatro décadas, a chamada “viragem animal” trouxe as relações complexas e contraditórias que os humanos desenvolvem com os animais não-humanos para a frente do debate científico e político.

Este tem sido um movimento duplo. Por um lado, focando-se na necessidade de (re)pensar formas sustentáveis e saudáveis de alimentar uma população mundial em constante crescimento. Por outro lado, emergindo em parte de forças sociais como os movimentos dos direitos dos animais, ou da comunidade científica, no seguimento da assinatura, em 2012, da Declaração de Cambridge, que reconheceu formalmente aos animais não-humanos a existência de sofrimento e de consciência.

Estes movimentos colocaram uma pressão adicional na necessidade de ter em conta o bem-estar animal, e de prevenir o seu sofrimento. Como resultado, a questão animal tem vindo a ser progressivamente reconhecida como um tópico central no estudo das vidas dos humanos, tocando aspetos tão diferentes como a agricultura e a produção biotecnológica de animais, a alimentação, vestuário ou outras formas de consumo, o parentesco e vidas das famílias, os mundos das crianças, a educação, a arte e a cultura popular, entre outros. Isto apelou a uma redefinição da nossa forma de olhar para a ligação humano/não-humano, de forma a incluir os mundos dos animais não-humanos e as especificidades das suas relações com os humanos, nos habitats em que vivem (sejam eles naturais ou de construção humana).

A ubiquidade dos animais nas vidas humanas revelou assim a sua profunda inserção em dinâmicas sociais que em tempos se pensou serem exclusivas dos humanos: desigualdades sociais e opressão, crime, distribuição no espaço e diferenças entre rural e urbano, consumo, lazer e cultura, ciência e experimentação, e vida política e social.

HAS Hub@ICS-ULisboa visa abordar as relações entre animais humanos e não-humanos, percebidas como um continuum entre natureza e cultura, ou naturecultures. Os animais não-humanos são considerados atores de pleno direito, ativos e decisivos na coprodução de comunidades híbridas, habitadas quer por humanos, quer por não-humanos. Agrega investigadores com diferentes backgrounds disciplinares (sociologia, antropologia, psicologia social, psicologia, biologia, geografia, entre outros), escolas, interesses e campos de investigação. 

No ICS-Lisboa, reúne investigadores de diferentes grupos de investigação, nomeadamente do LIFE – Percursos de Vida e Desigualdades, e ATS – Ambiente Território e Sociedade.Visa ser um espaço para pensar de forma livre e criativa as relações humanos-animais, e as suas implicações para a construção de um futuro vivível.